Eu não sou triste, eu digo sempre.
E ainda assim o mundo é uma ferida aberta
que arde, que queima e, descoberta,
mesmo quando sara ainda me treme.
O mundo é um soco no estômago,
o corte seco na carne exposta,
a fera faminta e o oceano,
o sol a pino, a chuva grossa.
O espaço mudo da queda da gota,
da queda da folha,
do voo suspenso do pássaro.
O mundo é uma ferida aberta
como o próprio tempo
que já foi e já nem é
Um erro de costura
entre o que começa e o que termina,
preenchido por aquilo
que às vezes chamamos de sentido
O mundo que dói bonito
é o abacateiro vergando no vento forte,
é a música lenta de versos gritados,
é o descompasso escancarado:
o algo que me anda
e o algo que me para
O mundo é uma ferida aberta
que eu olho nos olhos enquanto
atravesso,
pisando em brasa
pra me saber inteira, viva
aqui e agora
O mundo é uma ferida aberta
que eu escolho sentir:
nas neblinas,
nos galhos secos,
na água fria
No despencar
de uma chuva atemporal