quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Atravessável

Eu não sou triste, eu digo sempre.

E ainda assim o mundo é uma ferida aberta

que arde, que queima e, descoberta,

mesmo quando sara ainda me treme.


O mundo é um soco no estômago,

o corte seco na carne exposta,

a fera faminta e o oceano,

o sol a pino, a chuva grossa.


O espaço mudo da queda da gota,

da queda da folha,

do voo suspenso do pássaro.


O mundo é uma ferida aberta

como o próprio tempo

que já foi e já nem é 


Um erro de costura

entre o que começa e o que termina,

preenchido por aquilo 

que às vezes chamamos de sentido


O mundo que dói bonito 

é o abacateiro vergando no vento forte, 

é a música lenta de versos gritados,

é o descompasso escancarado:

o algo que me anda

e o algo que me para


O mundo é uma ferida aberta

que eu olho nos olhos enquanto 

atravesso,

pisando em brasa

pra me saber inteira, viva

aqui e agora 


O mundo é uma ferida aberta

que eu escolho sentir:

nas neblinas, 

nos galhos secos, 

na água fria 

No despencar 

de uma chuva atemporal